Uma estudante galega no GBU Porto

A assessora Josy Couto entrevistou a Jocabed Gonzalez, uma estudante da Galiza que esteve um ano em Erasmus na Escola Superior Artística do Porto. Nesta conversa, a Jocabed reflete acerca da sua experiência enquanto estudante universitária em Portugal, incluindo a sua participação no GBU do Porto, e acerca do seu percurso e envolvimento na esfera artística. 

Jocabed (ao centro, ao lado da assessora Josy) com outros elementos do GBU Porto durante o EBU 2025.


Josy: Podes começar por contar em que período estiveste em Portugal e qual foi a faculdade em que tu estudaste e o curso em que estavas. E como é que tu soubeste do GBU Porto?

Jocabed: Eu cheguei a Portugal a 31 de agosto de 2024 e finalizei a minha estadia 10 meses depois, no fim de junho de 2025. Foi em Erasmus, vinda da Universidade da Galiza, da Faculdade de Belas Artes de Pontevedra, para a Escola Superior Artística do Porto. Eu venho de uma família cristã e sempre fui à igreja. Na Galiza já tinha descoberto o GBU, no caso o GBU de Espanha. Estando na Universidade deslocada de casa e longe da igreja em que congregava, encontrei no GBU da Galiza uma comunidade que me deu a oportunidade de continuar a servir a Deus, agora no contexto da universidade.

Quando cheguei a Portugal, foi um pouco difícil de início. Não tanto pela língua, mas pelo relacionamento entre os estudantes. Na residência onde fiquei havia muito pouco convívio. Percebi que os estudantes chegavam das aulas e iam logo para os seus quartos. Então, eu comecei a orar no meu quarto a pedir ao Senhor que me desse uma ou duas pessoas com quem eu pudesse estabelecer amizade durante o meu Erasmus no Porto.

Entretanto, lembrei-me que talvez houvesse também GBU no Porto, porque tinha conhecimento de que há organizações idênticas em vários países. Foi então que pesquisei acerca do GBU e vi que haveria em breve o Encontro Bíblico Universitário – o EBU. As inscrições até já estavam fechadas mas eu enviei email a perguntar se ainda podia participar e recebi uma resposta positiva do escritório do GBU. E foi assim que começou a minha passagem pelo GBU em Portugal. Fiquei mesmo muito feliz porque foi uma resposta às minhas orações naquela altura. Nesse tempo tinha muito presente o Salmo 50:15: “Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei e tu me glorificarás”. É uma promessa incrível em duas linhas, não é? Então, é encorajador pensar que em qualquer momento, se eu não conseguir avançar por mim mesma, posso recorrer a Deus, Ele vai ajudar-me. E foi mesmo assim, a partir do EBU, e depois por meio da minha participação no GBU Porto.

Josy: E é verdade! Eu sou testemunha disso. E tu envolveste-te muito bem, muito rápido no EBU. Também me lembro disso. Tu interagiste logo com os outros participantes e foi muito fixe. E de facto, a partir daí, participaste muito ativamente no GBU. Agora podes falar também da tua experiência enquanto estudante internacional numa universidade em Portugal. Podes destacar o que mais gostaste e quais foram as áreas em que tu tiveste mais dificuldade? 

Jocabed: Como sou uma pessoa que gosta muito de se relacionar com outras pessoas, o início do meu período de Erasmus no Porto foi um pouco difícil nesta questão social. Era muito complicado começar conversas com as pessoas da residência e por isso eu estava desejosa que chegasse o momento de começar as aulas, porque eu achava que era uma forma de começar a relacionar-me com as pessoas.

Penso que em Espanha somos muito mais abertos neste aspeto. Por exemplo, para mim era muito estranho estar numa residência de estudantes e estar fechada no meu quarto. Na residência em Espanha os estudantes estão sempre nos espaços de convívio, a conversar, a jogar jogos ou a sair e a correr juntos. Mas em Portugal, pelo menos naquela residência, encontrei um ambiente muito frio, quase ninguém usava as salas de convívio, estava cada um no seu canto. 

Por outro lado, gostei muito de estudar na Escola Superior Artística do Porto – ESAP. Penso que Portugal está muito ativo a nível cultural e a metodologia de ensino das artes é muito boa. Isto contribuiu muito para a minha formação. Tive professores muito bons que me ajudaram a desenvolver muito artisticamente, tanto a nível conceptual como a nível técnico. Foi um ano de grande descoberta nestes aspetos e, graças a isto, descobri também o mestrado que queria fazer no futuro.

A língua não foi um problema, pois estudei quatro anos de português na Escola Secundária. Por isso, apesar de eu ser espanhola e de as nossas línguas serem irmãs, eu fiz questão de falar em português e de interagir em português enquanto vivia no Porto.

Josy: Durante o teu Erasmus, tu e mais dois estudantes iniciaram o núcleo do GBU na Faculdade de Belas Artes do Porto. Um núcleo que não só ainda se mantém ativo (mesmo depois do teu regresso a Espanha) como na verdade tem crescido! Podes contar-nos melhor como foi este envolvimento com o GBU em Portugal? O que é que ele representou para ti? Ou seja, o que é que isso acrescentou à tua caminhada de fé? E se houve alguma coisa que levaste contigo para implementar no GBU de Espanha? 

Jocabed: Eu sempre me envolvi muito aqui no GBU da Galiza, porque eu sempre considerei o GBU um ministério muito importante. Contudo aqui os núcleos são muito pequenos e, devido a incompatibilidade de horários entre os estudantes, parece que os núcleos vão reduzindo cada vez mais. Sei que não é algo que consigamos controlar, mas, no meu caso, por causa disto, nem sempre conseguia ter a motivação de que precisava.

Mas no GBU Porto fiquei muito impactada pelo compromisso que os estudantes tinham em estar presentes tanto nos núcleos, como nas plenárias. E não só estarem presentes como também terem uma participação ativa, porque era notório que não iam às plenárias por obrigação mas iam com prazer genuíno de estar com os irmãos e de convidar colegas a juntar-se. Recordo também as conversas longas depois das plenárias, enquanto comíamos juntos… Foi mesmo incrível, acho que não faltei a nenhuma plenária (risos).

Acho que quis enfatizar estes aspetos da necessidade de compromisso e do sentido de comunidade quando voltei para Espanha. Há pouco tempo tivemos a nossa Assembleia Nacional em Espanha onde me pediram para partilhar sobre a minha experiência de Erasmus e eu tentei transmitir uma mensagem de motivação para o serviço comprometido em qualquer lugar. Foi um testemunho muito bem recebido. 

Josy: O convívio também foi algo significativo para ti, ou seja, as pessoas se relacionarem, as amizades…

Jocabed: Sim! Porque não nos juntávamos só nos núcleos ou nas plenárias mas também nos tempos livres. Íamos tomar café, íamos ao cinema, visitar igrejas…Éramos amigos, éramos mesmo família. 

Josy: Entretanto, por tua sugestão, também houve um encontro de oração entre estudantes do Porto e pessoal do GBU Espanha. Podes contar-nos como é que correu essa iniciativa tão especial? 

Jocabed: Eu gostei imenso! Acho que correu muito bem e foi muito dinâmico. Também fiquei muito feliz pela participação da Ana Riviera que é a coordenadora que acompanha o GBU na Galiza e de ver estudantes portugueses e espanhóis juntos a orar uns pelos outros.

Cada vez que lembro este encontro, penso que o Senhor estabeleceu uma ponte entre os GBUs de Espanha e de Portugal por meio da partilha da minha experiência no Porto e isso resultou neste encontro ibérico de oração. Agora sempre que alguém me pergunta se recomenda fazer Erasmus eu digo logo que sim e recomendo logo a cidade do Porto!

Josy: Achas que foi um encontro que promoveu boas relações entre os movimentos de Portugal e de Espanha?

Jocabed: Eu acho que sim! Uma das estudantes espanholas no final do encontro enviou-me uma mensagem a dizer que foi muito fixe e que tinha gostado muito da imensa dinâmica de “relação peninsular” (risos). Houve um ambiente de união e um vínculo natural muito bonito. Desejo que seja o início de uma boa relação entre estes grupos do GBU de países diferentes.

Josy: Concordo! Eu acho que o próximo passo é fazer o InterGBUs que incluía pessoal do norte de Portugal e pessoal da Galiza, com uma reunião de oração presencial. 

Jocabed: E incentivar estudantes do GBU da Galiza a se inscreverem no EBU dada a proximidade geográfica.

Josy: Mudando um pouco de assunto, no GBU procuramos dar espaço às artes como uma forma criativa e necessária de ação no mundo e na sociedade. E este semestre estamos a refletir, de modo intencional, sobre a relação entre fé e cultura. Por isso gostávamos também de te perguntar como é que a tua fé cristã influencia a forma como olhas para a arte e como fazes arte? 

Jocabed: Bem, a linha de trabalho que eu adoto para as minhas peças de arte é muito específica e quase sempre a mesma. Essa linha nasceu da necessidade de conservar a minha cultura com respeito às tradições e à língua galega… Porque sempre foi uma língua muito perseguida em Espanha. Durante a ditadura e a guerra civil, a língua galega sobreviveu através da fala. Sobreviveu porque a gente falava galego. E houve mesmo gente que esteve em perigo por falar galego. Então eu tive um clique com este tema por volta dos meus 17, 18 anos, e comecei a achar que era muito importante lutar por conservar a nossa cultura, as nossas raízes, a nossa língua.

Isto porque a Espanha é multicultural. A Espanha inclui a Galiza, o País Basco, a Catalunha, etc. São regiões distintas… Por exemplo, eu gosto muito da Andaluzia, mas eu não tenho nada a ver com a cultura mais flamenca, se calhar mais próxima daquilo que é o estereótipo da Espanha, pois toda a gente conhece a Espanha pelo flamenco. Mas a Galiza não tem nada a ver com isso.

Então, o amor que eu tenho pela minha cultura é algo que eu procuro refletir nas minhas obras de arte. Por isso, essa arte foca-se nas dinâmicas de preservação de escultura galega, tradicional, floral, como são os Maios no início do mês de maio, como também as pandeireteiras, as mulheres que no campo tocavam músicas… Pequenas coisas que eu acho que não devem ficar no esquecimento. Essa é normalmente a minha linha de trabalho e é por isto que eu quero fazer o meu mestrado em gestão da arte de património nacional. 

Relativamente à fé, nunca surgiu nenhum projeto em que tenha sentido necessidade de o relacionar de uma forma explícita com a minha fé cristã. O que tem acontecido é que o Senhor me tem ajudado a não ter nenhum tipo de medo nas ocasiões em que posso mostrar que sou cristã. E deixo sempre os meus colegas à vontade para me colocarem as perguntas que quiserem sobre a minha fé. Sempre me mostrei disponível aos meus colegas para termos conversas sobre fé, e logo no final do meu primeiro ano, dois colegas meus pediram-me que lhes desse duas bíblias. Esse momento foi muito especial.

Então, eu acho que não tenho necessariamente que fazer coisas nas minhas obras que tenham a ver com a minha fé diretamente. O Senhor deu-me muitas oportunidades para falar da minha fé mas ainda não surgiu que fosse através da minha arte. 

Josy: Talvez não tenhas tido oportunidade de fazer um tipo de arte que seja explicitamente cristã, mas esse trabalho de preservação deve também ser visto como trabalho para o Senhor! Ele é o Senhor de todas as etnias e regiões, Ele valoriza a experiência e a cultura humana nas suas múltiplas expressões, Ele ama a Galiza e a cultura galega, por isso o trabalho te propões fazer está perfeitamente alinhado com este Senhor e com a sua história de redenção da humanidade!

Por vezes enquanto cristãos de linha protestante podemos ter tendência a ignorar ou desprezar a dimensão estética da nossa fé, focando apenas nos aspetos mais analíticos e racionais. Tens alguma sugestão para que os grupos do GBU e os cristãos em geral possam apreciar melhor a dimensão artística e beneficiar disso no seu crescimento na fé?

Jocabed: A arte é uma linguagem complementar que nos pode comunicar coisas sobre Deus. No contexto antigo, uma igreja ornamentada servia como linguagem visual para conseguir transmitir a história da Bíblia, por exemplo, numa comunidade onde havia muito analfabetismo. Hoje podemos apreciar esse tipo de arte com esse olhar e, mesmo na sociedade contemporânea, a arte pode desempenhar um papel semelhante de comunicação visual. É verdade que isto também pode levar à idolatria, mas na realidade os seres humanos podem tornar qualquer coisa num ídolo, seja na arte seja em qualquer outra área.   


Outro aspeto em que a arte é muito valiosa é como facilitadora de conversas, de partilha de experiências e emoções humanas entre pessoas que são muito diferentes. A arte traz essa humanidade comum à superfície e eu tenho tido essa experiência de que às vezes não é tanto a peça de arte em si que está em causa, mas as conversas que ela permite ter com os outros artistas ou com os apreciadores da arte. Uma sala de exposições, uma sala num museu, pode ser um lugar muito de fixe de conversa livre, de diálogo espontâneo, de partilha, até de comunhão. 

Josy: Muito bom, muito interessante, eu nunca tinha pensado nesses termos! Última pergunta: tens algum conselho para um estudante cristão que esteja a dar os primeiros passos no seu percurso universitário nas artes? 

Jocabed: se és uma pessoa tímida é difícil ao início, mas podes supor que a pessoa que se vai sentar ao teu lado no primeiro dia de aulas também partilha dessa dificuldade, também está tão nervosa como tu estás; então uma simples conversa, como te chamas, de onde és, etc. pode trazer muita tranquilidade a ti mesmo e também para essa pessoa. Estão ambos na mesma situação, numa etapa nova, vão ouvir muitas coisas que vão gostar e outras que vão discordar (como em qualquer outro curso)… Algo muito importante em Artes é encontrar pessoas com quem se estabelece uma relação de confiança para os trabalhos de grupo, pois são imensos trabalhos, há muito desgaste ao longo do tempo, muito stress, etc. Então estabelecer estas relações de entreajuda e que incluem também bom convívio e amizade é muito importante e é também um contributo cristão que trazemos para o curso. 

Josy: Muito obrigada pelas tuas respostas, Jocabed. Sinto a tua falta aqui no Porto e podes voltar quando quiseres! 

recebe as nossas novidades
apoia
segue-nos