Ser intencional e não ter medo – Uma história do GBU Setúbal

A assessora Ângela Silva entrevistou a estudante Matilde Caldas, líder do GBU em Setúbal. A Matilde contou-nos como tem sido intencional a partilhar a fé com as suas colegas e como tem sido surpreendente a reação destas após aceitarem estudar a Bíblia juntas. 

Angela: Bom dia Matilde, muito obrigada pela tua disponibilidade para estarmos aqui. Enquanto assessora do GBU de Setúbal, estou mesmo muito, muito feliz por poderes compartilhar um bocadinho da tua experiência, do teu testemunho, e ouvir-te sobre como tens encontrado na tua universidade um campo de missão, onde tu estás a viver, a comunicar e a compartilhar o Evangelho.

Matilde: Obrigada pela oportunidade.

Angela: Gostava de começar por perguntar-te o que é que tu estás a estudar e o que mais gostas na tua área de estudos. 

Matilde: Eu estou a estudar Educação Básica, estou no segundo ano da licenciatura no Politécnico de Setúbal. Eu sou mesmo apaixonada por esta área, não era o que eu pensava seguir, mas Deus colocou isto no meu coração e agora sou mesmo apaixonada pela ideia de poder ensinar. Eu quero ser professora de primeiro ciclo, ensinar as crianças a ler e escrever, e o facto de ter esta oportunidade de moldar mentes tão pequeninas para o futuro é algo surreal… Gosto mesmo muito de tudo, de saber acerca do desenvolvimento delas e estou bastante entusiasmada para começar a dar aulas. 

Angela: Isso é muito bom! Uma particularidade é que eu também sou professora, educadora, e nós, inclusive, já falámos muitas vezes da nossa experiência comum neste curso. Identifico-me muito com o teu entusiasmo e com essa ideia de contribuir para uma fase tão inicial da aprendizagem da criança.
Tu estudas no Politécnico de Setúbal e gostava que pudesses descrever um pouco o ambiente estudantil nesse meio em que estás inserida.

Matilde: Eu acho que entre um Politécnico e uma Universidade há diferenças. Comparando o tamanho da Universidade de Lisboa com o Politécnico de Setúbal, podemos perceber que aqui em Setúbal o ambiente estudantil é mais pequeno do que na Universidade e acaba por ser muitas vezes mais focado em arraiais, eventos da praxe, ou seja, muitas festas. Sinto que poderia haver outras iniciativas, como por exemplo o voluntariado. Por vezes, há oportunidades, mas quase sempre num contexto de praxe. A meu ver a Associação de Estudantes é um pouco fechada em si mesma e interage pouco com quem está fora dela. Mas, tirando isso, acho que no Politécnico temos melhor comunicação com os professores, com os funcionários, com os colegas… Isto é muito bom porque consigo conhecer melhor as pessoas que servem na Universidade, consigo até criar mais amizades à medida que conheço as pessoas. Esta realidade também facilita na divulgação do GBU: como somos poucos, sei onde é que eu tenho de me dirigir para solicitações relativas aos nossos encontros, para colocar cartazes, para comunicar de modo eficaz com a comunidade académica.

Angela: Tendo em conta a descrição que acabaste de fazer, que palavras te vêm à mente para caracterizar este ambiente, seja para sublinhar coisas boas ou coisas más? O que é que tu destacarias neste contexto estudantil? 

Matilde: Acho que “familiar” é uma boa palavra para descrever este ambiente de Politécnico. Porque, como disse, somos poucos, então eu sei onde me dirigir, consigo criar relações, algo como, por exemplo, saber o nome dos funcionários e eles saberem quem é que eu sou. As pessoas conhecerem-me, no geral, é realmente uma coisa que eu não esperava, pois dizem sempre que a universidade está repleta de gente, com turmas gigantes, etc. É verdade que a minha turma é grande, mas mesmo assim as pessoas conseguem estabelecer uma relação comigo. Eu acho que “familiar” é mesmo uma boa palavra! E também destacaria a palavra “cuidado”, até certo ponto. 

Angela: Pois, há um sentido de acolhimento, não é? Ou seja, os politécnicos têm muito esta vertente de ser um lugar mais pequeno, um pouco mais familiar e haver às vezes estas interações com funcionários e mesmo com colegas até de outros cursos, nas escolas que estão ali ao redor.

Matilde: Sim, sem dúvida. O Politécnico de Setúbal tem dois campus, um no Barreiro e outro mesmo em Setúbal. Aqui, em Setúbal, engloba quatro escolas e, como é um ambiente tão familiar, consigo ter interações em todas as escolas, ainda que não sejam logo aqui ao lado. Eu estou na escola de educação e dou-me com pessoas de saúde, do outro lado do campus, mas mesmo assim deve ser mais fácil do que haver interação entre a Faculdade de Direito e a Faculdade de Ciências em Lisboa, por exemplo. Provavelmente lá não se consegue ter este ambiente assim familiar.

Angela: Penso que essa interação é o que traz também mais riqueza nas conversas e nos relacionamentos nesse ambiente de Politécnico. E é precisamente no meio desse ambiente que tu tens sentido muita vontade e muita coragem em compartilhar acerca de Jesus com os teus colegas que não são cristãos. Gostava que contasses um pouco acerca dos encontros de estudo bíblico que tens tido com os teus colegas, partilhando como é que tudo começou e como é que tem sido a tua experiência a partilhar o Evangelho? 

Matilde: Eu converti-me com 14 anos, mesmo à beira de entrar no secundário. Quando entrei no secundário estava sempre um pouco de pé atrás para falar de Jesus com os meus colegas; tive momentos em que senti que devia ter partilhado e não o fiz. Então quando entrei na faculdade, aproveitando que esta seria uma nova fase na minha vida, decidi que não queria mais esconder que sou cristã, que iria estar disponível para partilhar o Evangelho sempre que possível, pois não queria que a minha fé continuasse a ficar guardada só para mim. Comecei a frequentar o GBU logo no meu primeiro ano e, simultaneamente, comecei a convidar duas colegas para virem comigo ao GBU. No início, elas ainda não estavam muito receptivas à ideia e no primeiro semestre nenhuma delas quis participar no núcleo. Entretanto, no segundo semestre comecei a assumir mais responsabilidade no núcleo e a liderar alguns dos estudos bíblicos. Nessa altura voltei a fazer o convite às minhas colegas, informando que seria eu a liderar alguns dos estudos, numa tentativa de fazê-las sentir mais segurança para participarem. Foi então que uma dessas minhas colegas (que já tinha algum conhecimento sobre Deus), começou a ter interesse em ler a Bíblia e eu sugeri-lhe começar pelo Evangelho de Mateus. Após algum tempo ela foi uma vez ao GBU. Depois não voltou a ir durante o restante do semestre, mas, no final deste, ela apareceu mais uma vez e, para minha grande surpresa, levou também a nossa outra colega. Elas adoraram estar no estudo e partilharam comigo que, uma das coisas que realmente lhes deu vontade de ir, foi o facto de eu nunca ter escondido que sou cristã, pois foi algo que eu quis dizer de um modo firme logo desde o início. Uma delas disse-me que tinha tido interações negativas com cristãos no passado e que tinha tido sempre dificuldade em assumir publicamente que acreditava em Deus. Por isso, o facto de eu ser tão firme na minha fé e de ir à igreja todos os domingos criou-lhe bastante impacto, ao ponto de decidir comprometer-se mais com o seu crescimento na fé e com a sua presença nos estudos bíblicos do GBU. Ambas estão agora a ser transformadas pelo Evangelho e vejo nelas muitas diferenças desde quando as conheci.

Angela: Eu tenho acompanhado este teu percurso, esta tua abertura e  intencionalidade ao compartilhares o teu testemunho e a tua fé. Que tipo de atitudes é que originaram toda esta situação? Ou seja, como é que as tuas colegas chegaram a este “sim” de começar a ir contigo ao GBU? 

Matilde: Desde o início eu sempre fui muito intencional nas minhas conversas. Também, por exemplo, logo no primeiro dia de aulas, eu levei uma t-shirt a dizer: “Jesus é Rei”, para que ninguém tivesse dúvidas (risos). Outro aspeto foi ter sido muito franca em relação ao compromisso que eu já tinha com as reuniões de oração às quintas-feiras na minha igreja, que coincidiam sempre com o dia dos jantares de curso. Elas acharam aquilo muito estranho. Então, começou assim, com estas pequenas coisas, estas pequenas partilhas. Com o tempo começámos a desenvolver uma amizade genuína entre nós e elas começaram a ter mais à vontade comigo. Nisto uma delas começou a partilhar o seu passado, revelando que tinha crescido no meio católico e frequentado a catequese. Começou a demonstrar interesse em voltar a ler a Bíblia e eu orientei-a nesse sentido. A minha outra colega não tinha um passado deste género, mas tinha vivido uma perda pessoal e isso fê-la estar aberta à possibilidade de Deus. Então eu ia fazendo os tais convites para participarem nos encontros do GBU e, mesmo que elas ainda não ganhassem coragem para dar o passo de irem, ia-me mantendo muito disponível para responder às questões de cada uma, desenvolvendo um relacionamento estreito com elas. Fui muito intencional nestas amizades. Não só não desisti de as convidar como também mostrei muita disponibilidade em passar tempo com elas, ouvi-las sobre as suas lutas e ajudá-las com os trabalhos da Faculdade. Elas notavam que as minhas palavras eram coerentes com as minhas ações e creio que isso teve muito impacto nelas. Notavam que havia algo de diferente. Penso que foi isto que as fez ganhar a tal confiança para começarem a frequentar o GBU.

Angela: Sim, sem dúvida que são estas pequenas ações, esta intencionalidade de perceber as necessidades dos nossos colegas, estarmos atentos às suas lutas e às dificuldades nas cadeiras, ajudar e servir, também isso muda o olhar deles sobre nós. No seguimento disto, qual é que tem sido a relação, ou a reação, das tuas colegas ao estudarem a Bíblia contigo? Há alguma coisa que te esteja a surpreender nisto? 

Matilde: Sim, para mim todo este processo é surpreendente! Eu não estava nada à espera que as suas reações fossem tão positivas. No último dia do segundo semestre do primeiro ano, elas decidiram então ir comigo ao GBU. Bem, fui reparando nas caras de espanto delas conforme eu ia dirigindo o estudo… E quando saímos da reunião, uma delas partilhou que tinha adorado e que estava com pena de só ter ido no último dia do ano letivo. Aproveitei e sugeri-lhe lermos juntas a Bíblia durante as férias. Ela entusiasmou-se com a ideia. Ofereci uma Bíblia à outra colega e então passámos todo o verão a ler a Bíblia reunindo-nos semanalmente ao longo das férias. 

Para mim, foi um momento muito especial. Eu nunca tinha sido tão intencional na caminhada de início/redescoberta da fé de alguém e foi muito bonito vê-las a descobrir Deus. Este momento contribuiu para o crescimento da minha fé também, porque eu tinha muitos receios que elas me perguntassem coisas que eu não soubesse responder, mas fui dando o meu melhor, numa atitude humilde perante as perguntas que elas iam fazendo, que às vezes eram difíceis de responder. Houve muitos momentos especiais, por exemplo, quando num estudo bíblico falei sobre David, uma delas disse que se recordava da personagem porque eu já a tinha mencionado em conversas nossas. Ou também a outra que começou a ver a série The Chosen e dizia que se lembrava de coisas que lhe tinha falado cada vez que via um episódio novo. Eu sei que Deus faz coisas maravilhosas, nós cristãos temos todos essa noção, mas o facto de ter visto Deus a mover-se e a transformá-las foi mesmo maravilhoso, mesmo muito bom, um privilégio. É fantástico vê-las a terem impacto também noutras vidas. Por exemplo, uma dessas raparigas tem um namorado e ela começou a mostrar-lhe Deus, e ele ficou também tão impactado que agora até se juntou a nós. Por isso, agora somos os quatro a ler a Bíblia, e todos eles já têm participado no GBU. 

Angela: Ao longo deste último ano em que temos estado a caminhar juntas posso dizer que a história destes três estudantes tem impactado não só a tua vida, mas também a minha,  de modo indireto, ao testemunhar a tua intencionalidade nestas amizades! Para além dos estudos bíblicos, que oportunidades é que o contexto do ensino superior te tem trazido para aprofundares a tua fé, de forma a ser sal e luz ali onde estás neste momento a estudar? 

Matilde: Eu acho que o ensino superior dá-me pessoas um pouco mais abertas a ouvir. Sinto que as pessoas estão um pouco mais abertas a ouvir outras perspetivas e isso dá-me mesmo muitas oportunidades para ser intencional com colegas. Não só com estes três colegas, mas em geral, mas quando as conversas não são assim tão bem sucedidas. 

Angela: Pois, se olharmos com sentido de missão, o ensino superior traz essa oportunidade, não só através de estudos bíblicos, mas pela própria interação, forma de estar com os colegas, ajudando numa dificuldade, conversando, com uma postura de escuta ativa… 

Matilde: Realmente penso que, como cristãos na universidade, a nossa intencionalidade em estarmos atentos ao nosso redor para cuidar e servir é muito importante. Isto porque é na altura da faculdade que a pessoa está na idade de começar a construir mais solidamente o seu caráter, a tentar perceber como é que a vida funciona, a preocupar-se muito com o seu futuro, a começar a assumir responsabilidades mais sérias, ou seja, a começar a ser adulto. E eu sinto que todos os meus colegas pensam muito nestas questões e têm muitas preocupações em relação a estas coisas. Por isso, a universidade é o contexto perfeito para um estudante cristão ser firme e é um campo fértil para o cristão cuidar, servir e conversar sobre uma nova perspetiva de ver e de viver a vida. Os jovens estão todos ali a tentar desmistificar o que é a vida e os estudantes cristãos sabem quem dá a vida! O estudante cristão pode dizer ao seu colega que não tem medo do futuro, porque ele tem Deus e, se o colega quiser, também pode ter este Deus a cuidar do seu futuro. Não faltarão oportunidades para este tipo de conversas na universidade.

Angela: Gostavas de deixar alguma palavra de incentivo e de encorajamento para os estudantes que estão de Norte a Sul no GBU? 

Matilde: Sim, acho que o que eu posso dizer é para serem intencionais. Ser intencional resultou comigo. Porque ser intencional ajuda-nos a estarmos atentos aos contextos e às oportunidades. Quando não somos intencionais, estamos mais metidos para dentro de nós e as oportunidades passam-nos ao lado, não notamos as pessoas que são colocadas à nossa volta. Outro encorajamento que posso dar é não terem medo. Não vou mentir, no início senti muito medo em relação a partilhar com as minhas colegas. Tinha muito receio das suas reações. Mas arrisquei e a verdade é que fui bem surpreendida. Então, arrisquem, porque como a minha mãe sempre me dizia: “o não é garantido, então vai tentar o sim!”. Sê intencional e não tenhas medo, porque a verdade é que este tempo na universidade passa tão rápido, mas tão rápido, e se nós deixarmos passar estas oportunidades, vamos olhar para trás e sentir que podíamos ter feito muito mais. Então, tenta, porque Deus é merecedor de tentares.

Angela: Muito obrigada, Matilde, por abrires um bocadinho do teu coração e de tudo aquilo que tem acontecido no GBU de Setúbal. O meu coração está mesmo bastante grato por estar a caminhar convosco, e agradeço ao Senhor por tudo aquilo que ele tem feito através de ti, enquanto estudante ali no Politécnico.

Matilde: Obrigada eu, pela oportunidade.

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