Um Vazio que Só Deus Podia Preencher
Nesta entrevista, a assessora Ana Cid falou com o Quévin Macial com o intuito de conhecer e partilhar com a família alargada do GBU a história da sua conversão que aconteceu no seio do GBU Aveiro. Uma história que nos encoraja e nos recorda a famosa afirmação de Blaise Pascal de que há em cada coração humano um buraco com a forma de Deus…
Ana Cid – Olá Quévin. Podes começar por te apresentar brevemente, o que estudas, quais os teus interesses e de que forma é que tens estado envolvido no GBU?
Quévin – Olá, eu estou a estudar na Universidade de Aveiro, no terceiro ano de Engenharia Electrotécnica e Computadores. Faço parte da direção do GBU local e também estou integrado num grupo de robótica. Gosto dessa área, é a minha área. Também sou bombeiro.
AC – Hoje em dia és cristão e participas no GBU e numa igreja local de forma ativa, mas a tua vida nem sempre foi assim. Podes contar-nos sucintamente qual era a tua perspetiva sobre Deus e sobre a fé cristã até à tua conversão?
Quévin – Eu achava que acreditar em Deus era para os ignorantes e para os fracos. Eu achava que não fazia sentido nenhum de um ponto de vista lógico, e nem sequer ponderei muito durante a minha vida quase toda até ter-me convertido.
AC – E relativamente à tua família, qual era a postura da tua família relativamente à religião enquanto tu crescias? Falava-se de Deus, não se falava de Deus, como é que era?
Quévin – Eu sou do Norte e eu acho que a minha experiência é algo cultural em Portugal, em geral, mas no Norte é um pouco mais acentuada. Sou de uma família cristã católica, só que eu não diria que eles são os melhores representantes da própria doutrina católica, porque, apesar de se autodenominarem cristãos, na minha opinião e com o devido respeito, eles não pareciam sê-lo. Durante muito tempo isso revoltava-me, porque a única representação de cristianismo que eu tinha era a minha família e as pessoas que me rodeavam. Mesmo não acreditando em Deus, eu via ali algo muito hipócrita. Ou seja, como é que alguém diz acreditar em Deus e se auto-intitula como cristão, sem que isso influencie a sua vida? É que ser cristão não é uma coisa leve, é uma coisa que influencia a vida toda. Mas infelizmente eu não via isso na minha família e aquela era a representação de Jesus e Deus que eu tinha.
AC – E mesmo sendo esse o teu contexto, que é o contexto onde tu cresceste e depois em que foste formado, tu chegaste a Deus– ou podemos dizer que Deus chegou até ti. Conta-nos um pouco acerca da tua história, da tua conversão a Cristo. O que é que te levou a buscar respostas na fé cristã e qual é que foi o contexto em que isso aconteceu?
Quévin – Como eu disse, eu passei quase a minha vida toda sendo ateu. Um ateu bastante orgulhoso. A ideia de crer em Deus nunca me passava pela cabeça. Até que (pronto, eu acho que esta é a história mais normal das conversões), eu estava numa fase dura na minha vida. Tinha acabado com uma namorada minha e tinha voltado a fazer coisas de que hoje me arrependo muito. E andava à procura de preencher um vazio que eu nunca antes tinha percebido que existia, até acreditar em Deus. Mas agora olho para trás e percebo que eu realmente estava à procura de preencher aquele buraco. E, enquanto procurava preencher esse vazio, eu ia ficando pior porque os métodos que eu usava não eram os melhores, tais como satisfazer-me com relações, consumo de álcool, etc… Essas coisas só me deixavam pior, mas o contexto à minha volta dizia-me que era esse o caminho para o preenchimento do vazio. Ter sucesso com as raparigas, sair à noite, etc, isso é que me deixaria feliz. E por isso era isso que eu fazia. Até que, numa dessas noites, eu pensei: “se é isto que é suposto fazer-me feliz, se é isto que é o objetivo da vida, então a vida não vale muito a pena.” E entrei nessa espiral de percepção em relação ao sentido da vida. Até que me lembrei de um amigo meu que se converteu há muitos anos atrás. Ele também era um pouco parecido comigo, também era ateu e também tinha adotado um estilo de vida parecido com o meu. Mas, quando se converteu, ele tornou-se rapidamente uma pessoa diferente. Eu nunca mais tinha falado com ele, precisamente por se ter convertido e ter mudado completamente o estilo de vida. Mas acabámos por nos cruzar e eu passei uma semana a falar com ele, a tirar dúvidas sobre o cristianismo… Até que eu achei que estava a ser demasiado chato e decidi procurar na internet uma comunidade cristã em Aveiro. E a primeira coisa que me apareceu foi o GBU.
Resolvi aparecer nos encontros do grupo e calhou ser na semana do “Deus? Só Visto” (ciclo de palestras organizado pelo GBU). Passei essa semana toda a ajudar os estudantes do GBU Aveiro a organizar e a divulgar as palestras e, no final, acabei por me converter.
AC – Há pouco falaste na rápida mudança que aconteceu na vida do teu amigo. E na tua própria vida, será que também já consegues identificar áreas em que há claramente um antes e um depois da tua conversão a Jesus?
Quévin – Sim, há muita coisa diferente, algumas coisas foram mudanças drásticas. Uma das mudanças mais instantâneas foi reduzir substancialmente o meu consumo de álcool. Neste momento já não faz sentido para mim estar em ambientes onde há grandes exageros nesta área. Uma mudança que demorou um bocadinho mais foi alterar a minha forma de falar e deixar de dizer palavrões. Fui alertado por uma amiga quanto a isto, mas, sendo do norte, os palavrões eram algo muito natural, usados como vírgulas. Era algo muito enraizado. Contudo, lendo a Bíblia percebi que moderar a língua faz parte da nossa transformação integral, então dizer palavrões também deixou de fazer sentido para mim. Também o facto de ter decidido moderar a minha procura desenfreada por relacionamentos amorosos é algo que me custou imenso, como também a luta com o consumo de pornografia que está tão generalizado na nossa geração. Estas têm sido as lutas mais difíceis, mas consigo ver que Deus me tem ajudado nestas áreas. Uma das coisas que eu mais me apercebo é que, quando há momentos em que eu ando um pouco mais afastado d’Ele, quando eu não oro tanto, quando eu não leio a Bíblia, é quando essas tentações ficam muito mais fortes e mais difíceis de controlar. Então, literalmente preciso de Deus para resolver isto.
AC – Sim. De facto é uma caminhada longa e difícil. Mas Deus é bom.
E relativamente à tua experiência na Universidade, como estudante, será que também podes falar de um antes e um depois na forma como tu encaras os teus colegas e mesmo os teus estudos, agora que caminhas com Jesus?
Quévin – Sim, eu diria que sim. Quando entrei para a Universidade, logo no meu primeiro ano, eu estava mais interessado no lado mais social e noturno da vida académica, como sair à noite para consumir muito álcool. Mas o facto de eu ter deixado isso, também fez com que eu melhorasse a minha performance académica. Mas eu diria muito mais do que isso… O que vale mesmo a pena comentar é o facto de eu agora ver as pessoas de forma diferente, porque a minha perspectiva do mundo virou completamente do avesso! Antes, quando eu olhava para as pessoas, eu não tinha interesse nenhum por elas, mas agora, quando olho para uma pessoa, seja cristã ou não, eu vejo uma pessoa que Deus ama. Então, quando um colega me pede ajuda para estudar aquela matéria que ele não percebe e que eu até percebo, e mesmo que às vezes não me apeteça tanto ajudar, eu sei que é um filho de Deus e que Deus ama aquela pessoa, então, quem sou eu para dizer que não quero ajudar? Há dias em que me apetece dizer isso, não vou mentir, mas quero contrariar o egoísmo e esforçar-me para ajudar quem precisa.
AC – E pensando agora no GBU, o que é que o grupo do GBU tem sido para ti? O que é que participar no GBU tem acrescentado à tua vida?
Quévin – Eu desde que sou cristão que estou no GBU. Basicamente, eu nasci de novo no GBU. Posso dizer que não conheço uma vida cristã sem o GBU. É difícil dizer o que é que me acrescentou mais, porque toda a minha transformação aconteceu dentro no GBU, mas, especificando, eu diria que me acrescentou amizades diferentes, às quais eu dou bastante valor. São amizades completamente diferentes das amizades que eu tinha antes ou das que eu ainda tenho com amigos não cristãos. Eu gosto muito de conversar com os meus amigos cristãos, porque há bondade nessas conversas e nos temas conversados e foi muito bom descobrir que se pode conversar dessa forma. Eu senti logo desde o início que estas amizades eram inocentes (no bom sentido), ou seja, que não tinham segundas intenções e que eram genuinamente meus amigos.
Outra coisa que aconteceu através do GBU foi que um amigo meu, a quem eu apresentei o GBU, também se converteu e isso também significou muito para mim. E a cereja no topo do bolo foi que eu conheci a minha atual namorada no GBU. Por tudo isto posso dizer que o GBU acrescentou mesmo muita coisa à minha vida.
AC – Aproximamo-nos do final da entrevista e agora tenho um convite para olhares para trás, para o passado. Se pudesses ter uma conversa com o Quévin de há uns anos atrás, o Quévin antes da conversão, o que é que tu lhe dirias? O que é que era assim mais urgente dizer a esse Quévin ou a outros Quévins que se calhar agora estão a passar pela mesma situação, à procura de respostas, à procura de Deus, mesmo sem o saberem?
Quévin – Tu falaste de duas coisas: falaste de uma pessoa que esteja à procura de Deus e de uma pessoa que esteja na situação que eu estava há uns anos atrás. Eu acho que são situações diferentes e, embora acredite que no final do dia toda a gente está à procura de Deus, há uma grande diferença entre as pessoas que se apercebem que querem conhecer Deus e as pessoas que nem sequer percebem que o buraco que têm é precisamente a falta de Deus. Então, se eu tivesse que falar com o meu eu de há uns anos atrás, eu diria que a prioridade seria fazer-me perceber que as coisas onde eu procurava felicidade eram vãs e que, na verdade, o que eu precisava era de Deus; o buraco que eu tinha dentro de mim tinha exatamente a forma de Deus e só Ele o podia preencher. Quanto às pessoas que já se aperceberam disso e que estão genuinamente à procura, talvez ainda com dúvidas mas querendo saber mais, eu diria para falarem com amigos ou pessoas que conheçam que sejam cristãos que realmente praticam a sua fé e que não tenham apenas esse título… E outro conselho que dou, que foi algo que eu e o meu amigo que se converteu fizemos, é começar a orar. Pode parecer estranho ao início, e de facto no meu caso houve muitas noites em que parecia que estava a falar para uma parede ao fazer aquela oração básica de pedir a Deus que, se existisse, para me mostrar isso, etc… Mas, na verdade, esta abordagem tira toda a pressão de cima da pessoa, pois ela não tem de procurar e investigar sozinha. É óbvio que a pessoa tem de fazer a sua parte, isso faz parte do processo. Mas, ao orar assim, faz com que a bola esteja no campo de Deus e eu acredito genuinamente que Ele vai estar lá para responder.
AC – Obrigada Quévin, muito encorajador ouvir a tua história.

Quevin Macial

Parte do grupo de estudos do GBU Aveiro que acolheu o Quevin
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