“Eu Agora Tenho Esperança”

Nesta entrevista, o Secretário-Executivo David Raimundo falou com o Eduardo Gonçalves, estudante no Instituto Politécnico de Leiria, com o intuito de conhecer e partilhar com a família alargada do GBU a história da conversão do Eduardo. Estas histórias dão-nos vislumbres da forma como o Espírito Santo trabalha nas vidas das pessoas de modo a trazê-las a Jesus. São histórias que nos inspiram e encorajam e que mostram que o Evangelho continua hoje a ter a capacidade de fazer “rebentar” a descrença e a desesperança. Convidamos-te a ler então a história do Edu.

David Raimundo – Olá Edu. Atualmente tu estudas no Instituto Politécnico de Leiria e fazes parte do GBU nessa cidade. Podes começar por te apresentar brevemente: qual é a tua área de estudos, os teus interesses académicos e como é que tens estado envolvido no GBU?

Eduardo Gonçalves – Eu estou a estudar Engenharia Informática na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do IPL e acho muita piada à área de Engenharia de Software, a todo o processo que envolve conceber o software até à própria execução, incluindo a programação em si. Não sei se é nisto que eu vou trabalhar, mas esta é uma área de interesse. Atualmente faço parte da liderança do GBU de Leiria, portanto tenho um envolvimento muito próximo com o GBU local, faço Estudos Bíblicos Indutivos, ajudo a organizar o núcleo em Leiria, o pessoal voluntário para as várias iniciativas, delego tarefas, etc. Também ajudo a organizar alguns encontros, pois o GBU Leiria procura relacionar-se com os outros grupos existentes aqui na região centro-oeste, como Peniche e Caldas. Pessoalmente, eu gosto muito de me relacionar com os outros GBUs, por isso quando posso até vou às plenárias do GBU Lisboa. São sempre momentos que adicionam algo à minha vida.

DR – Então hoje em dia és cristão e participas no GBU e numa igreja local de forma muito ativa, mas a tua vida nem sempre foi assim. Podes contar-nos sucintamente como era o teu contexto familiar/religioso até à tua conversão há alguns anos atrás?

Edu – Eu cresci numa casa em que havia muita liberdade religiosa. É uma situação muito atípica, porque o meu pai é ateu e a minha mãe é testemunha de Jeová. Casaram-se já assim, mesmo que pareça muito estranho. Foi difícil e houve consequências na vida pessoal da minha mãe por causa dessa decisão. Mas, graças ao facto do meu pai ser ateu, eu cresci com bastante liberdade para escolher o que fazia no momento em que a minha mãe ia para as reuniões. Era muito difícil para ela, sozinha, competir com outras coisas apelativas como o computador e outras atividades. Por isso, eu comecei muito cedo a ficar simplesmente cá por casa e a minha doutrinação nas testemunhas de Jeová ficou ali pelos 11 anos. Por essa altura, eu tinha apenas uma vaga ideia de que eles acreditavam num Deus, Jeová, mas eu não tinha assimilado nenhuma doutrina mais específica ou consistente, tipo teologia de salvação. Depois disso, vivendo numa sociedade materialista, eu fui absorvendo por osmose, de modo inconsciente, a visão materialista do Universo. Ao entrar na idade adulta, eu olhava para as pessoas como seres puramente materiais, encarando todos os sentimentos e ações como mera consequência de reações químicas. É uma visão do mundo que não tem espaço para mais nada a não ser o desenrolar de leis naturais. Esta não era uma visão muito agradável, mas eu sempre preferi a verdade ao agradável. Até posso dizer que, durante algum tempo, eu não pensei que houvesse nada de agradável na verdade.

DR – “Nada de agradável na verdade”: essa era uma constatação muito forte. Então eras materialista no verdadeiro sentido da palavra, até às últimas consequências…

Edu – Yap, e não gostava disso. Não achava piada às consequências lógicas do materialismo. Conduz a uma vida que realmente não tem significado ou objetivo. Eu ouvia pessoas a argumentarem que podemos criar o nosso próprio objetivo, mas quando explorava esse tipo de argumentos mais a fundo percebia que eles não levavam a lugar nenhum. São só uma forma de tentar lidar com o vazio. Houve uma altura bastante deprimente em que, numa consulta com um psicólogo, eu estava a falar da forma como via o mundo e ele disse-me que eu estava a sofrer de hiperracionalidade. Só que não era nada daquilo que eu queria ouvir. Eu queria que ele me dissesse onde é que os meus pensamentos estavam errados, mas ele basicamente disse-me que eu estava a pensar demasiado. E isso fazia-me muita confusão: então para sentir-me bem com a vida é preciso parar de pensar? É preciso desligar um bocadinho da realidade? É preciso alienar-me?

DR – Até quando é que esse foi o estado da situação? Ou seja, quando é que a tua visão do mundo começou a mudar? 

Edu – Isto foi assim até 2021. Foi nesse ano, durante a pandemia, que as coisas mudaram. E era mesmo por eu estar insatisfeito com o materialismo que estava também aberto a algo mais… 

DR – Isso já começa a responder à minha próxima pergunta, que diz respeito à fase seguinte desta tua caminhada rumo à fé. Não obstante o teu contexto familiar e a visão do mundo que tu foste desenvolvendo ao chegares à idade adulta, a verdade é que tu chegaste a Deus… ou se calhar podemos dizer que Deus chegou a ti. Fala-nos então desse processo de conversão a Cristo. O que é que te levou a buscar respostas na fé cristã, como é que esta mudança de vida aconteceu?

Edu – Eu gosto que as coisas tenham consistência e que façam sentido e eu estava à procura de respostas. Não especificamente na fé cristã, mas fui analisando coisas prévias antes de chegar ao cristianismo. Como por exemplo, acreditar que não existe só matéria, que não existe só este mundo físico, que há um causador não causado de tudo quanto existe. Passar a acreditar nisto (o chamado unmoved mover) foi algo que me permitiu olhar posteriormente para o cristianismo sem ser cínico, sem o rejeitar liminarmente. Assim que ouve um apelo a algo sobrenatural, o materialista deita isso fora de imediato. Mas, numa visão já não puramente materialista, o cristianismo começou a encaixar perfeitamente na concepção que eu estava a adquirir daquilo que veio antes do espaço e do tempo. Fui ouvindo coisas sobre o cristianismo que lhe davam consistência lógica aos meus olhos. Claro que isso ainda não era suficiente, porque a consistência lógica poderia estar assente em falsas premissas. Eu ainda precisava de evidências de que o cristianismo fosse verdade. E encontrei-as! Aquilo que mais me tocou foram eventos históricos, eventos extremamente específicos previstos no Antigo Testamento, havendo evidência de que o texto é anterior ao evento, e que efetivamente aconteceram como estava previsto. Estou a falar de eventos como a queda de Tiro. Para mim não é plausível achar que a previsão e a posterior concretização desses eventos se deve a um acaso. Por isso, a pessoa fica entre a espada e parede: ou acredito em algo muito implausível (no acaso) ou acredito que o povo de Israel realmente tinha acesso a algo que lhes estava a falar do divino. E esta segunda possibilidade acaba por ser a mais plausível entre as duas, sobretudo se estivermos abertos à hipótese de que haja algo ou alguém fora do tempo e do espaço que não esteja preso à história da mesma maneira que nós estamos. Por esta altura, eu já estava receptivo a isto, à hipótese de um Deus externo ao universo, um Deus criador, que não é físico nem temporal. E agora eu somava a isso a evidência histórica de que um ser com essas qualidades havia interagido com o povo de Israel, um povo que também afirmava a existência de Deus. Assim, passei a acreditar na interação de Deus com a humanidade, em particular nessa interação exclusiva com aquele povo de Israel. E, por isso, fez todo o sentido passar a olhar com seriedade e devoção para o que aquele povo escreveu.

DR – Arriscando resumir e parafrasear aquilo que estás a partilhar connosco, então é como se as evidências históricas te tivessem dado confiança nas Escrituras, no testemunho do povo de Israel, e no alvo para onde esse testemunho aponta também. É isso? 

Edu – Sim, é isso. E claro, esse alvo é Jesus, tudo aponta para Jesus. Que, já agora, também está envolto em histórias que são muito difíceis de compreender e de encaixar de alguma forma se tivermos uma visão hiper-materialista do mundo e colocarmos de lado a ressurreição como possibilidade histórica…

DR – Pois, de facto, a apologética também dá bons frutos no que respeita à plausibilidade histórica da ressurreição. E como é que todo este processo de abertura ao transcendente, a Deus, ao Deus da Bíblia, como é que aconteceu? Em que tipo de contexto: mais isolado ou em contacto com outras pessoas? 

Edu – Inicialmente foi um processo solitário, a ler livros e a ver vídeos online. No verão de 2020 li o Cristianismo Puro e Simples, de C. S. Lewis, para tentar perceber o que era isto do cristianismo afinal. Apreciei o que li, mas isso não me bastou… Fiquei a pensar que, afinal, a fé cristã não era tão descabida como eu pensava, não era algo que estava reservado apenas para gente burra ou com dissonância cognitiva, pois percebi que havia gente muito inteligente a acreditar em Cristo. Gente que não está a segmentar processos mentais de modo a conseguir seguir os preceitos da fé. Mas eu ainda precisava de mais evidências. Continuei a ver vídeos de apologética, de tipos como o Mike Winger e, principalmente, o William Lane Craig. Aliás, posso afirmar que foi o William Lane Craig que rebentou completamente com o meu materialismo. Ele tem um argumento que é o kalam cosmological argument* cuja parte inicial é extremamente sólida e aponta para a necessidade de uma força criadora que está fora do espaço e do tempo e que, portanto, é sobrenatural. Isso chegou para estilhaçar a minha visão materialista do mundo. Há uma necessidade lógica de que este mundo seja consequência de outra coisa. Um “algo” ainda mais essencial à realidade do que isto, do que aquilo que é material e visível. Algo que é de certa maneira hierarquicamente superior.

DR – Então tiveste esse teu percurso mais solitário com leituras e vídeos apologéticos, mas em algum momento procuraste outros, procuraste comunidade. O que é que te levou a dar esse passo?

Edu – Bom, isto aconteceu durante a pandemia, quando até havia limitações no acesso às igrejas. Contactei uma igreja na minha cidade, mas, como tínhamos de reservar lugar, inicialmente não me dei a esse trabalho. Nessa altura, a única mini-comunidade que eu tinha eram uns estudos bíblicos com a minha irmã, que se tinha convertido em 2018, e o então namorado dela. Fiz esses estudos bíblicos com eles durante um ano. Entretanto a pandemia passou e eu ainda não me tinha juntado a uma igreja, mas começaram a ocorrer coisas na minha vida que me levaram a notar a falta de comunidade cristã. Estava rodeado das mesmas pessoas de antes, via muitas coisas que me deixavam triste, mas não tinha bases para argumentar contra essas coisas. Percebi que havia bases morais diferentes e comecei cada vez mais a sentir a necessidade de estar numa comunidade rodeado de pessoas que partilham a mesma moralidade do que eu. Depois mais tarde percebi que isto não era só uma necessidade, uma sensação pessoal, mas é mesmo o passo bíblico a dar, pois todo o contexto cristão acontece em comunidade, em igreja. Então em 2022 juntei-me finalmente à igreja que eu tinha anteriormente contactado, depois fui baptizado lá e continuo integrado nesta comunidade até agora.

DR – Que alterações é que todo este processo de conversão trouxe ao Eduardo? A parte intelectual ficou decerto muito mais satisfeita, mas que outras alterações é que consegues detectar na tua vida?

Edu – Bem, eu agora tenho esperança. Agora tenho razões para ter esperança. Mesmo nas piores situações eu sei que isso não é a história toda. A vida deixou de ser uma tragédia absurda, uma coisa ridícula, uma piada de mau humor. Passou a ser uma história de amor, algo relacional, algo com sentido, uma coisa bonita, não é verdade?

DR – Obrigado por essa resposta tão genuína e até poética!

Aproveitando agora a quadra em que estamos, gostava de te perguntar o que é hoje o Natal para ti. Depois deste processo de conversão, como é que vês o Natal hoje? 

Edu – Na minha casa nunca comemorei o Natal. Esta festividade tinha um significado chato, pois fazia-me sentir alienado, uma vez que era algo que toda a gente comemorava menos eu. E ainda hoje é algo que não se comemora na minha casa, dadas as diferentes perspectivas religiosas. Mas já não é um tempo de aborrecimento por não poder estar com ninguém, mas sim um momento de felicidade. Hoje em dia é, mais uma vez, relembrar o momento em que Ele veio à terra e isso é motivo para estar feliz. Antigamente eu era puramente cínico a olhar para as ruas e para as cenas de Natal. Eu só pensava: que desperdício de dinheiro, de recursos, de energia. Olhava para todas as cenas com o menino Jesus, com Maria e José, e pensava que era tudo uma parvoíce, uma coisa tão à toa, com tantas pessoas a adorar um homem normal… Sentia que estava acima de todas aquelas coisas. Portanto, não era só aborrecimento, mas durante toda esta época eu alimentava um sentimento de superioridade. Mas hoje em dia já consigo apreciar, sem fazer esforço. Simplesmente aprecio, gosto de ver, gosto de ser relembrado constantemente do nascimento de Jesus e do que isso significa para nós! E gosto de pensar que isto está a ser posto à frente de toda a gente, toda a gente está nas ruas e toda a gente tem oportunidade de olhar e de pensar sobre o significado do Natal.

DR – Uma última pergunta: a tua conversão não aconteceu no contexto do GBU, mas, por seres estudante universitário, acabaste por chegar ao GBU ainda como novo convertido. O que é que te atraiu no GBU? E o que é que o envolvimento no GBU tem acrescentado à tua caminhada na fé?

Edu – Como eu já referi, numa fase inicial eu não tinha uma comunidade cristã à minha volta e eu queria ter mais convívio com irmãos, queria de certa forma ser reeducado, aprender a conviver melhor… Eu sempre gostei de fazer piadas, mas as minhas piadas eram constantemente muito mundanas, coisas que me saíam da boca e que não edificavam ninguém. O GBU trouxe-me convívio saudável com pessoas cristãs e, neste contexto, tenho aprendido que consigo ser uma pessoa alegre e engraçada sem ter de ser mundano nas minhas palavras. Permitiu-me ver como os cristãos operam nesta realidade comunitária, como é que os cristãos se relacionam uns com os outros. E ainda hoje sinto-me a ser edificado pelos meus irmãos, sinto que estou a crescer, a perceber melhor como devemos nos comportar e relacionar. O GBU também me trouxe outra coisa importante: é que eu sou bastante preguiçoso e essa preguiça estende-se à minha relação com Deus. A participação no GBU faz com que aqueles momentos com Deus e uns com os outros não dependam tanto do meu esforço, chego ali e simplesmente estou com Deus. Se não fosse isso, se fosse apenas por mim, acabava por ter menos momentos de comunhão com Deus. É graças ao GBU que tenho portanto uma relação mais profunda com Deus.

DR – Obrigado Eduardo. Nota-se que és uma pessoa que quer a verdade a qualquer custo e isso transparece no teu discurso e na forma profunda como refletes sobre o mundo. Obrigado pelo teu testemunho!

* Argumento cosmológico a favor da existência de Deus sugerido pela escolástica islâmica no tempo medieval (designada de kalam) e reformulado para a filosofia contemporânea por William Lane Craig no livro com o mesmo nome (Kalam Cosmological Argument) datado de 1979.

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